Capítulo 2
O pequeno grupo de quatro pessoas encontrava-se na tenda termicamente isolada. estava mais calor no interior do que lá fora, mas ainda assim, era uma temperatura desagradavelmente baixa. Vladimir, Chiharu e Jane observavam Norberto desenhar um esboço do animal, com uma imagem em tons verdes à sua frente. Ele abanou a cabeça negativamente.
- Parece-me ser um Dinossauro... Melhor, um réptil de tamanho colossal...
- E qual é a diferença entre isso e um dinossauro? - perguntou Jane, curiosa.
- Bem, os Dinossauros não sobrevivem no gelo. - Informou ele. - Nenhuma espécie conhecida de dinossauro tem capacidade de sobreviver congelada...
- Há mais alguma coisa que viva dentro de um bloco de gelo? - perguntou Vladimir, incrédulo.
- Sim... Alguns anfíbios têm uma proteína anti-congelante no sangue, que os impede de morrerem, caso congelem quando hibernarem. - Contou o biólogo. - Mas até agora pensava-se que isso tinha um limite até ao qual impedia o sangue de congelar.
- Já pra não falar no tempo que aquilo ficou sem comer...- comentou Chiharu. - Recebi os resultados das analises do gelo perto da criatura... cerca de duzentos e quarenta anos...
Se os músculos da sua face não o impedissem, o queixo de Norberto teria caído com um estrondo no chão. Até mesmo Jane e Vladimir sabiam que nada conseguiria viver durante tanto tempo sem comer.
- Como... ? Isso é impossível... - sussurrou Norberto.
- Eu sei... - concordou o japonês. - mas estes são os resultados do terceiro teste que foi feito e todos deram o mesmo resultado. Se queres que seja mais preciso, aquilo está ali em baixo há pelo menos duzentos e trinta e seis anos.
Mas o que é aquilo! - Exclmaou Jane, sentando-se. - Ainda não o conseguiste classificar?
- Não... só sei que é um réptil... - afirmou Norberto.
Acabaram por se dirigir ao local onde ainda decorria as escavações, agora de uma maneira mais cuidadosa. Norberto pediu ao homem que manuseava a escavadora para parar, e desceu para o buraco. o silêncio que se fazia era estranho naquela zona. Apesar de ser Verão, era frequente haver um vento gélido e cortante. Norberto calculou que aquele fosso estivesse abrigado do vento.
Jane seguiu de perto. Logo atrás dela vinha o Russo. O japonês acabou por se deixar ficar para trás.
- Mais um pouco, e já devem ter tirado todo o gelo... - Comentou a americana.
Norberto acenou afirmativamente, e aproximou-se ainda mais do gelo. Agora conseguia adivinhar o som grave dos lentos batimentos cardíacos da criatura moribunda. Ele aproximou a cara do gelo.
- Parece... que a cabeça está aqui... - E bateu com o punho no elo, produzindo um som abafado.
Estava prestes a erguer-se de novo, quando algo o assustou. No sitio onde tinha batido, algo se moveu. Por baixo do gelo ele conseguia ver a cor avermelhada da criatura. De repente, uma fenda amarela horizontal abriu-se no vermelho escuro, até ficar arredondada. No centro da bola amarela estava uma fenda preta. Uma... pupila. Era o olho. Fitando-o. olhando-o com uma raiva contida durante séculos, um ódio inimaginável acumulado nos sonhos daquele sono pesado no frio continente. De tal maneira, que Norberto se deixou cair para trás. Só então é que Jane e Vladimir se aperceberam de que a criatura tinha acordado.
segundos depois, ouviu-se um som que Norberto nunca imaginara que o iria assustar tanto na sua vida. O som de algo a estalar. O som de gelo a quebrar sob os movimentos impetuosos de algo aprisionado há demasiado tempo para ter misericórdia, apenas com espaço na mente para a carnificina.
Jane foi a primeira a conseguir pensar e a puxar os dois homens para a ingreme parede do buraco. Treparam desesperadamente, ouvindo o gelo estalar cada vez mais, retorcer-se e cair no chão, à medida que o animal finalmente se libertava.
Quando finalmente chegaram lá acima, já centenas de pessoas observavam, atentas, na borda do buraco.
- Não, temos de ir! Corram, não fiquem aqui! - exclamou Norberto, suplicante, mas sem que o ouvissem.
As pessoas estavam demasiado curiosas e atentas ao que se passava para lhe ligarem. Jane, decidida, agarrou-lhe o braço e correu, seguida de Vladimir, em direcção à tenda. Pouco depois, aperceberam-se que Chiharu já vinha atrás deles.
Norberto olhou um pouco para trás, e paralisou. A criatura erguia-se agora do buraco. Já todos fugiam. A sua cabeça munida com dois chifres olhava, virando-se para um lado e para outro, para aquela cena quase cómica de humanos a correrem desalmadamente pela planície de gelo. As suas patas enormes e poderosas içaram-no para ora do buraco onde havia estado preso. Algo nos seus movimentos parecia forçado e lento, como se apreciasse a liberdade recém-redescoberta. Aquilo era muito maior do que o biologo e os geólogos julgavam. A sua cauda era também musculada e terminava em quatro ameaçadores espinhos gigantescos. Ao longo do seu dorso estavam mais espinhos, que eram maiores o centro das costas e mais pequenos junto à cabeça e ao fim da cauda. Abriu ligeiramente a boca, deixando ver uma fileira de dentes recurvados e afiados. Então, soltou o seu primeiro rugido. O ar vibrou de tal forma que eles se desequilibraram. A criatura continuou a rugir. Agora tinham de tapar os ouvidos, pois o som já tinha passado a barreira do doloroso. E os olhos de Norberto escancararam-se quando o animal estendeu as suas colossais assas, sustentadas pelos dedos finos e compridos de um terceiro par de membros. Os dedos encontravam-se unidos por uma membrana fina e bem irrigada. Norberto não podia acreditar nos seus olhos. Só faltava que aquilo cuspisse fogo.
- Que os deuses nos ajudem, mas acabei de ter uma ideia do nome que devíamos dar a esta espécie... Dragão. Que tal? - comentou Jane, com um humor sádico e sem graça.
-Acho que encaixa perfeitamente... - respondeu Norberto, ainda atónito com o que observava.
- Adorei a sessão de piadas, mas não acham que é melhor irmos? - Perguntou o Russo. - É que o vosso bichinho de estimação está a vir apara aqui!
Só então é que os outros três se aperceberam que aquilo era mesmo verdade. O Dragão estava a dirigir-se para eles. Não. Não era para eles, pensou Norbert. Claro que não. Ele dirigia-se para a costa. Para o mar. Para os continentes que fervilhavam de vida humana. Ainda assim, correram para dentro da tenda, com se aquele tecido os protegesse do colosso que se passeava no exterior.
- Regra de Ouro para quem vai para a antárctica. - disse Chiharu. - Nunca tente soltar do gelo algo que ainda esteja vivo. Não dá com nada...
De repente, ouviam um rugido lamentoso da criatura e o chão tremeu após um estrondo gigantesco. eles correram para fora, para ver o que se tinha passado.
Ir para o prólogo e capítulo 1
domingo, 6 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010

Prólogo
As criaturas com armas afiadas deixaram-no exausto. Apenas queria tratar das suas feridas, poder viver em paz. Nem sequer sabia o que tinha feito de mal àquelas pequenas criaturas. Talvez por ter-se alimentado de alguns deles. Sim. Era a única coisa que ele tinha feito contra eles. Mas ali, as criaturas já não o conseguiam alcançar. Estava acima das nuvens, dirigindo-se para o Sul.
Algumas horas depois, o ar começou a arrefecer drasticamente. Começou a sentir os seus membros ficarem entorpecidos e as suas pálpebras a pesarem cada vez mais. Acabou por ter de aterrar desajeitadamente. Por baixo das suas patas sentiu a neve fria e compacta. o gelo ainda o adormecia mais. Optou por entrar numa gruta. Era uma simples gruta de gelo, cobrindo a rocha.
Quando a tempestade atingiu o local, ele já não estava consciente. Tinha entrado num estado de hibernação total. Os seus batimentos cardíacos lentos e débeis ecoavam pela gruta. Então foram abafados pelos silvos do vento. O gelo e a neve começaram a acumular-se, à sua volta, envolvendo-o num abraço de centenas de anos.
Capítulo 1
Antárctica, 20 de Dezembro de 2009
O grupo de geólogos aproximou-se do local de escavações. A sua tarefa era explorar as rochas perto de uma gruta recém-descoberta. Era um buraco na rocha, cheio de gelo compacto.
- Vamos começar a fazer as perfurações daqui a pouco. - Anunciou em inglês uma homem loiro de olhos azuis, encasacado. Praticamente nenhuma parte do seu corpo estava exposta ao frio cortante, excepto um ou outro fio de cabelo e parte da sua boca.
- Mas só depois de fazer-mos um plano da gruta, Matt. - completou uma das geólogas, de cabelos castanhos e olhos verdes, dirigindo-se ao loiro na mesma língua.
enquanto dizia isto, pousou uma pequena carga de explosivos na entrada da gruta.
- Não gosto de usar isso. Tem cuidado para não deitares a gruta abaixo, Jane. - Pediu um dos outros geólogos. O seu inglês tinha um sotaque estranho.
- Sim, Jane, tem cuidado para não afundares a Antárctida inteira com duas gramas de dinamite! - Gozou um homem, com sotaque claramente russo.
- Está descansado, Norbert. - Tranquilizou Jane. - isto é inofensivo.
O homem revirou os olhos.
- O meu nome é Norberto. - repreendeu ele, desta vez em português.
Apesar de ter falado na sua língua materna, ele foi compreendido pela mulher, que encolheu os ombros num falso pedido de desculpas.
Passado um pouco, a voz do russo pediu para que se afastassem. eles dirigiram-se para um homem asiático novo. Nas suas mão enluvadas repousava um aparelho de aspecto antigo e pesado, com um ecrã em tons verdes e pretos. Quando a dinamite explodiu, as cores moveram-se, para mostrarem o interior da gruta. O asiático aproximou o aparelho dos olhos, como se o que estivesse a ver o impressionasse.
-M...masaka... - gaguejou ele, em japonês. - Sugoi!
A surpresa deu lugar a excitação no seu rosto. Ele apontou para o ecrã, aproximando-o da cara de Norberto.
- Vê isto? O que é que acha? - Perguntou ele, desta vez em inglês.
Norberto abriu os olhos de espanto.
- Parece... um animal.. - sussurrou Jane. - Norbert, tu é que és formado em biologia... o que achas?
- Acho que é um réptil... ou pelo menos tem a forma de um... E avaliar pelo tamanho, deve ser um Dinossauro... acabámos de descobrir o primeiro fóssil congelado de dinossauro... - comentou ele.
Os geólogos ficaram a entreolhar-se, acabando por fitar a gruta. A mesma pergunta passava pela cabeça de todos: O que seria que estava dentro daquela gruta?
Quase todos estavam perto da escavadora, a observar o gelo a ser removido. O japonês ficara encarregue de vigiar quando é que estavam perto da criatura que haviam descoberto. Estavam a meio da gruta, quando o asiático voltou a aproximar exageradamente o aparelho dos olhos. Correu para o homem que estava a controlar a escavadora e pediu-lhe freneticamente que parasse.
- Que se passa, Chiharu? - Perguntou o russo.
- Vladimir, não vais acreditar... - respondeu ele.
Norberto e Jane aproximaram-se.
- A principio pensei que fosse por causa da escavadora a bater no gelo que fazia estas modificações, mas então, observei melhor, e, enquanto a escavadora esteve parada, a deformação das linhas manteve-se constante. - explicou Chiharu.
Ninguém pareceu compreender.
- Observa. - ordenou o japonês, entregando a aparelho a Norberto.
- sim realmente... consigo ver as deformações regulares que dizias... aparecem e desaparecem, sempre no mesmo sitio... Não sei o que poderia causar... Que os Deuses nos ajudem! - exclamou ele, caindo de joelhos, olhando para Chiharu.
O japonês riu-se histericamente, acenando com a cabeça para Norberto, concordando com o que ele estava a pensar. Os outros observaram o aparelho, sem perceber o que se passava. Até que Jane deslizou o dedo pelo ecrã verde e preto até ao local onde se podia de vez enquanto ver um ponto preto, de onde partiam depois linhas verdes quase imperceptíveis até quase a meio da gruta.
- Estranho... como se algo estivesse a ecoar sempre constantemente em intervalos regulares, como se fosse... O raio de um coração a bater! - Gritou ela. - Oh meu Deus! Está vivo! Aquilo ali em baixo ainda tem pulsação!
Agora também a geóloga tinha a boca escancarada. Vladimir ergueu uma sobrancelha, duvidoso, mas observando a reacção de todos os companheiros, acabou por perceber que aquilo era mesmo verdade.
Ir para o Capítulo 2
Subscrever:
Mensagens (Atom)
