
Prólogo
As criaturas com armas afiadas deixaram-no exausto. Apenas queria tratar das suas feridas, poder viver em paz. Nem sequer sabia o que tinha feito de mal àquelas pequenas criaturas. Talvez por ter-se alimentado de alguns deles. Sim. Era a única coisa que ele tinha feito contra eles. Mas ali, as criaturas já não o conseguiam alcançar. Estava acima das nuvens, dirigindo-se para o Sul.
Algumas horas depois, o ar começou a arrefecer drasticamente. Começou a sentir os seus membros ficarem entorpecidos e as suas pálpebras a pesarem cada vez mais. Acabou por ter de aterrar desajeitadamente. Por baixo das suas patas sentiu a neve fria e compacta. o gelo ainda o adormecia mais. Optou por entrar numa gruta. Era uma simples gruta de gelo, cobrindo a rocha.
Quando a tempestade atingiu o local, ele já não estava consciente. Tinha entrado num estado de hibernação total. Os seus batimentos cardíacos lentos e débeis ecoavam pela gruta. Então foram abafados pelos silvos do vento. O gelo e a neve começaram a acumular-se, à sua volta, envolvendo-o num abraço de centenas de anos.
Capítulo 1
Antárctica, 20 de Dezembro de 2009
O grupo de geólogos aproximou-se do local de escavações. A sua tarefa era explorar as rochas perto de uma gruta recém-descoberta. Era um buraco na rocha, cheio de gelo compacto.
- Vamos começar a fazer as perfurações daqui a pouco. - Anunciou em inglês uma homem loiro de olhos azuis, encasacado. Praticamente nenhuma parte do seu corpo estava exposta ao frio cortante, excepto um ou outro fio de cabelo e parte da sua boca.
- Mas só depois de fazer-mos um plano da gruta, Matt. - completou uma das geólogas, de cabelos castanhos e olhos verdes, dirigindo-se ao loiro na mesma língua.
enquanto dizia isto, pousou uma pequena carga de explosivos na entrada da gruta.
- Não gosto de usar isso. Tem cuidado para não deitares a gruta abaixo, Jane. - Pediu um dos outros geólogos. O seu inglês tinha um sotaque estranho.
- Sim, Jane, tem cuidado para não afundares a Antárctida inteira com duas gramas de dinamite! - Gozou um homem, com sotaque claramente russo.
- Está descansado, Norbert. - Tranquilizou Jane. - isto é inofensivo.
O homem revirou os olhos.
- O meu nome é Norberto. - repreendeu ele, desta vez em português.
Apesar de ter falado na sua língua materna, ele foi compreendido pela mulher, que encolheu os ombros num falso pedido de desculpas.
Passado um pouco, a voz do russo pediu para que se afastassem. eles dirigiram-se para um homem asiático novo. Nas suas mão enluvadas repousava um aparelho de aspecto antigo e pesado, com um ecrã em tons verdes e pretos. Quando a dinamite explodiu, as cores moveram-se, para mostrarem o interior da gruta. O asiático aproximou o aparelho dos olhos, como se o que estivesse a ver o impressionasse.
-M...masaka... - gaguejou ele, em japonês. - Sugoi!
A surpresa deu lugar a excitação no seu rosto. Ele apontou para o ecrã, aproximando-o da cara de Norberto.
- Vê isto? O que é que acha? - Perguntou ele, desta vez em inglês.
Norberto abriu os olhos de espanto.
- Parece... um animal.. - sussurrou Jane. - Norbert, tu é que és formado em biologia... o que achas?
- Acho que é um réptil... ou pelo menos tem a forma de um... E avaliar pelo tamanho, deve ser um Dinossauro... acabámos de descobrir o primeiro fóssil congelado de dinossauro... - comentou ele.
Os geólogos ficaram a entreolhar-se, acabando por fitar a gruta. A mesma pergunta passava pela cabeça de todos: O que seria que estava dentro daquela gruta?
Quase todos estavam perto da escavadora, a observar o gelo a ser removido. O japonês ficara encarregue de vigiar quando é que estavam perto da criatura que haviam descoberto. Estavam a meio da gruta, quando o asiático voltou a aproximar exageradamente o aparelho dos olhos. Correu para o homem que estava a controlar a escavadora e pediu-lhe freneticamente que parasse.
- Que se passa, Chiharu? - Perguntou o russo.
- Vladimir, não vais acreditar... - respondeu ele.
Norberto e Jane aproximaram-se.
- A principio pensei que fosse por causa da escavadora a bater no gelo que fazia estas modificações, mas então, observei melhor, e, enquanto a escavadora esteve parada, a deformação das linhas manteve-se constante. - explicou Chiharu.
Ninguém pareceu compreender.
- Observa. - ordenou o japonês, entregando a aparelho a Norberto.
- sim realmente... consigo ver as deformações regulares que dizias... aparecem e desaparecem, sempre no mesmo sitio... Não sei o que poderia causar... Que os Deuses nos ajudem! - exclamou ele, caindo de joelhos, olhando para Chiharu.
O japonês riu-se histericamente, acenando com a cabeça para Norberto, concordando com o que ele estava a pensar. Os outros observaram o aparelho, sem perceber o que se passava. Até que Jane deslizou o dedo pelo ecrã verde e preto até ao local onde se podia de vez enquanto ver um ponto preto, de onde partiam depois linhas verdes quase imperceptíveis até quase a meio da gruta.
- Estranho... como se algo estivesse a ecoar sempre constantemente em intervalos regulares, como se fosse... O raio de um coração a bater! - Gritou ela. - Oh meu Deus! Está vivo! Aquilo ali em baixo ainda tem pulsação!
Agora também a geóloga tinha a boca escancarada. Vladimir ergueu uma sobrancelha, duvidoso, mas observando a reacção de todos os companheiros, acabou por perceber que aquilo era mesmo verdade.
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