Capítulo 2: Renegados
Olhei para o rapaz que me tinha tirado da casa.
– Que é que estás aqui a fazer? – Sibilei.
– Tem calma… Admira-me como é que um híbrido do teu género consegue sentir tanta raiva.
Olhei, desconfiado e confuso. Híbrido? Que queria ele dizer com aquilo.
– Isso era para me insultar? – Perguntei-lhe.
A cara de Carlos iluminou-se com o seu habitual sorriso jocoso.
– Muito pelo contrário, Alexandre. – Respondeu ele.
Uma explosão ouviu-se ao longe, e Carlos contorceu-se de preocupação. Desapareceu num piscar de olhos, na direcção de onde viera a luz.
Eu fiquei ali, simplesmente especado, no meio da estrada a observar as cinzas do que outrora haviam sido a minha casa. De repente, senti uma presença atrás de mim. Senti… De novo, aquela sensação que sentira com Carlos. Como se me apercebesse da Aura do ser que estava por trás de mim. Essa era muito mais maligna do que a do rapaz. Girei sobre mim mesmo. Um cão negro olhava-me com olhos flamejantes. Havia partes da sua pele que caiam, mas, em vez de se ver carne, parecia que o cão era feito de lava por dentro. Os seus dentes enormes e afiados ameaçavam-me. As suas patas dobraram-se. Ele estava pronto par saltar. Então, Clara apareceu, vinda do nada, e cortou a cabeça do animal com uma espada. Ela olhou-me, com o mesmo olhar frio de sempre. Desta vez eu retribuí-lho. De trás dela surgiu Carlos.
– Tu… Caramba, tu não sabes mesmo quem és, pois não? – Disse ele, desesperado.
A expressão de Clara modificou-se.
– Espera… Ele… Eu não posso crer...
– Podem explicar-me o que se passa aqui! – Exclamei, exaltado.
– Vem connosco. – Pediu Carlos.
Algo me dizia que ele estava pedir aquilo com boas intenções. Acabei por segui-los.
Eles levaram-me até a um bosque. Eu já conhecia aquele local. A maioria da floresta era constituída por altos e imponentes eucaliptos. O chão estava coberto com folhas secas destas árvores, que estalavam a cada passo que dávamos. Eu olhava à minha volta, à espera de ver qualquer coisa saltar das sombras. Mas estava tudo calmo.
– Então… Nunca te contaram de quem és filho? – Perguntou Carlos, duvidoso.
EU olhei para ele. As palavras dele fizeram recordar-me o meu pai que eu nunca conhecera. A minha mãe também não costumava falar muito nele, já que era um assunto difícil para ela.
– Nunca conheci o meu pai. Nem sei onde está. Se está vivo ou morto. – Respondi, secamente.
– Isso não é costume… – Sussurrou Clara. – Quer dizer… Eles costumam cuidar dos filhos.
Obviamente estava a dirigir-se a Carlos, que lhe respondeu:
– A não ser que sejam chamados para algo importante… – Comentou. – Será que há problemas lá…
Ela encolheu os ombros.
– Já me vão explicar o que querem dizer com quem eu sou? – Perguntei. – Podem começar por dizer quem são vocês.
– Renegados. – Respondeu ela.
Eu ergui uma sobrancelha, sem perceber o que ela queia dizer.
– Tu… Bem. Vou explicar rapidamente o que somos. – Começou Carlos, dando ênfase às palavras “o que”, como se eles não fossem humanos. – Eu e a Clara somos Renegados. Anjos que não obedeceram às ordens e que por isso, foram-nos retiradas as asas e os poderes, excepto a força e a velocidade. A nossa penitência é exterminar criaturas do Inferno. Ao fim de um certo número, provamos que queremos proteger a humanidade e somos perdoados. Os nossos poderes e as nossas asas ser-nos-ão restituídos quando chegarmos ao nosso objectivo.
Uma bolha de ar soltou-se dos meus pulmões e transformou-se numa gargalhada céptica. Eu simplesmente não conseguia acreditar naquilo.
– Sim, e eu sou Pai Natal. Oh, e também tenho o número do coelhinho da Páscoa. – Repliquei, ironicamente.
De repente, Clara desapareceu. Fiquei confuso, com a boca aberta.
– Não acreditas? – Sussurrou ela por trás de mim, com um tom perverso. – Nesse caso não vais negar o que viste em tua casa.
Um arrepio percorreu-me a espinha e fez-me estremecer.
– Um demónio de nível elevado. – Concluiu Carlos. – E o que vinha com ele era um Cão do Inferno. Ainda bem que ele não te magoou. Eles têm a capacidade de te ferir a tua alma. Essas feridas não aparecem na carne, mas nunca saram por dentro e doem tanto que acabam por matar.
Eu continuava a não acreditar. Eu devia estar a ter um sonho muito estranho. Estranho até demais para um pesadelo.
– Eu... Não… Não consigo acreditar. – Gaguejei.
– Isso já é um problema teu. – Informou ele. – Mas ainda não te contámos quem és…
– E essa é a melhor parte. – Comentou Clara. – Tu és um Híbrido. Mais precisamente um Híbrido Celestial. Meio humano, meio anjo.
Agora eu estava mesmo céptico. Nada daquilo fazia sentido.
– Mas os Anjos costumam cuidar dos seus filhos, a não ser que surja uma missão com importância extrema em que seja necessário um grande exército. E isso nunca aconteceu. – Continuou ele.
– Híbrido… Celestial… – Sussurrei.
– Sim. – Confirmou ela. – Existem também os Híbridos Infernais. Meio humanos, meio demónios. Todos os híbridos são raros.
Eu olhei para ela. Olhei para os seus olhos. Ela estava a dizer a verdade. Pelos menos acreditava no que estava a contar.
– Só há uma maneira de descobrirmos porque é que isto está a acontecer. – Disse Carlos.
– Temos de perguntar a alguém que saiba. – Continuou ela.
Eu perguntar-lhes em que é que estavam a pensar, mas uma sirene impediu-me de o fazer. Vi um camião vermelho passar na estrada em frente ao bosque. Foi aí que me lembrei da casa. Corri para fora da estrada, seguido de Carlos e Clara que me pediam para não ir para lá, no entanto eu fingi não os ter ouvido.
Quando lá cheguei já havia uma ambulância e várias pessoas à frente do que antes fora a entrada da casa. Reconheci duas sombras. Aproximei-me sorrateiramente e puxei-os para trás do grupo de pessoas, e levei-os para as traseiras de uma casa do outro lado da rua. Afonso e Ana estavam perplexos por me ver ali.
– Alexandre! – Exclamou ela, com lágrimas nos olhos. – Estás bem? O que aconteceu? Como é que estás?
Afonso estava simplesmente paralisado, em silêncio, sem saber o que dizer. Entretanto Carlos e Clara apareceram.
– Estás doido!? – Berrou ela. – As pessoas pensam que morreste no ataque! Queres que todos saibam que estás viso?!
Carlos encolheu os ombros, apoiando a sua irmã.
– Ataque? – Perguntou Ana. – Que é que queres dizer com isso?
– Estás a por os teus amigos em perigo. – Avisou Carlos, preocupado. – É melhor irmos.
– Não. – Respondi. – Sabem onde está a minha mãe?
Ana olhou para o chão. Afonso também evitou contacto visual comigo.
– O que é que… vocês sabem? – Gaguejei.
– Ninguém que estivesse naquela casa poderia ter sobrevivido… – Sussurrou Afonso.
O meu coração deixou de bater. Caí de joelhos o chão. A dor era tal que até me bloqueou as lágrimas. Agora sentia um enorme vazio no peito, como se me tivesse arrancado um imenso bocado dessa parte do corpo. De repente comecei a sentir uma aura calorosa por perto. Chamava-me. Aliviava-me a dor. Era tão boa. Estava por trás de mim.
– Não! – Exclamou Clara. – Alexandre! Temos de ir!
Virei para o sítio onde eu sentia aquela presença tão boa. Uma luz. Alguém estava lá. Então a luz desapareceu e no seu lugar estava agora um homem. Tinha o queixo redondo, o nariz perfeito. Os seus olhos azuis prendiam-me, sugando-me todo o mal e todos os sentimentos negativos que eu tinha. Das suas costas, um par de asas brancas estava estendido, dando-lhe um aspecto ainda mais imponente. A sua expressão séria parecia reprovar-me. Na sua mão direita estava uma espada. O punho era de ouro puro e a lâmina comprida e afiada era de prata brilhante. De repente, o choque tomou conta de mim. Era um Anjo. Eu não podia acreditar nos meus olhos. Ana e Afonso caíram por terra, sem saber o que dizerem.
– Vamos embora! – Gritou Carlos, preocupado.
O Anjo olhou-me de alto abaixo, e caminhou para mim, erguendo a espada. Então percebi. Ele não estava ali para me ajudar. Estava ali para me aniquilar. Os meus olhos arregalaram-se. Ergui-me de um salto e segui Carlos e a sua irmã. Eles correram de novo para o bosque.
Ouvi um som abafado atrás de mim, um bater de asas gigantescas. Ele estava atrás de nós a voar. Olhei para trás e lá estava ele. Estava quase a alcançar-me. Senti de novo a adrenalina percorrer-me o corpo. Mas desta vez um formigueiro vinha com ela. Comecei a sentir um calor intenso no peito. Passou para o meu braço e daí para a minha mão. Quando olhei para ela, uma bola de luz estava no centro, quente e… Poderosa. Num gesto rápido atirei-a contra o Anjo. Ele pareceu surpreendido, mas agarrou na bola de luz e atirou-a de volta contra mim, mas muito mais poderosa. Senti o poder daquela luz a aproximar-se e atirei-me para o lado. Quando a bola tocou no chão fez uma explosão que me atirou ainda mais pelo ar. Rodopiei até embater no chão. Rebolei pelo alcatrão da estrada e só parei quando bati contra a roda de um carro. Desamparado, olhei à minha volta. Carlos e Clara estavam estatelados no meio da estrada, mais lá à frente. O Anjo aproximava-se de mim.
– Alexandre. – Disse ele, melancólico, com a sua voz melodiosa. – Espero que me perdoes por isto. Mas as minhas ordens são matar-te. O Senhor não pode permitir que continues vivo.
A minha cabeça estalava, doía. Ainda assim tentava pensar em algo. Ele ergueu a espada. Ia ser um corte limpo e mortal. Mas eu não podia deixar-me morrer. O seu braço desceu rapidamente e eu dei uma cambalhota para o lado. A lâmina cortou o carro como se fosse feito de plasticina. O meu coração batia rapidamente. O que é que podia magoar um anjo? Demónios? Os demónios, sim. Mas o que é que eles usavam? Fogo. Precisava de fogo. Olhei para o chão. Com aquele golpe, o Anjo tinha feito o combustível do veículo ficar derramado no chão. Senti de novo o calor chegar até à minha mão e lancei a bola de luz contra o chão, tapando a cabeça com os braços. A luz da explosão atravessou as minhas pálpebras. Apercebi-me de uma sombra a passar por cima de mim. Senti o chão tremer e olhei para a frente. O anjo tinha sido atirado pela explosão. Apanhado de surpresa, parecia abalado, mas não ferido, fora uma ou outra pena chamuscada. Eu ergui-me e comecei a correr na direcção de Carlos e Clara. De repente ouvi um sibilar estranho. Quando olhei para trás o meu coração falhou um batimento. O Anjo acabara de me atirar a espada, certeira contra o peito. A lâmina parecia lançar-me um sorriso metálico e mórbido. Eu caí sob um joelho no instante antes de a lâmina me atingir. Sentia a passar por cima da minha cabeça, Tudo parecia ter ficado em câmara lenta. Olhei para a espada. Levantei a mão e agarrei-lhe o punho, fiz uma volta de trezentos e sessenta graus sobre mim mesmo enquanto me erguia, e continuei a correr. Olhei para espada nas minhas mãos sem acreditar no que eu tinha acabado de fazer. Carlos estava agora a levantar-se e começava a aperceber-se que a sua irmã também tinha sido atingida. Ele aproximou-se dela e tentou acordá-la.
– Porque é que ele me está a tentar matar? – Perguntei, irritado, apontando para o Anjo que caminhava na nossa direcção com uma cara de poucos amigos. – É suposto ele ajudar-nos, não é?!
– Também não percebo. – Respondeu ele, atarantado. – Eu… Não entendo.
Olhei de novo para trás. O Anjo abriu as asas ameaçadoramente. Eu olhei para ele. Não. Eu não ia deixar que ele me matasse. Pelo menos não sem dar luta. Apontei a espada para ele. Era mais pesada do que parecia à primeira vista, no entanto sentia-me confortável com ela na mão. Puxei o braço para trás. Deixei o calor percorrer-me o braço, atravessar-me a mão e iluminar a espada. Brandi a arma num golpe rápido, soltando o poder aprisionado na lâmina. A luz tomou a forma de uma onde que foi contra o anjo. Ele pareceu surpreendido novamente e tentou desviar-se. Saltou, mas ainda assim foi atingido numa das pernas. Caiu no chão, olhando para mim com ódio.
– Vamos. – Ordenei a Carlos. – Pega nela e vamos embora.
Ele assim fez, e começou a correr. Pouco depois deixei de o ver, mas segui na direcção que me pareceu que ele tinha tomado. Pouco depois já ouvia o bater quase silencioso das asas do anjo. Atirei a espada ao ar, num movimento rápido, no instante em que ele me sobrevoava. Ouvi o som do metal da lâmina cortar carne. O meu oponente caiu no chão, com um enorme estrondo como se tivesse imenso peso. Olhei para o lado quando passei por ele. Tinha a espada espetada no peito. Os seus olhos observavam o céu. Agora eram de um azul muito claro. Pareciam mesmo mortos, como se tivessem perdido aquela chama que anteriormente tinham. Eu aproximei-me do corpo e retirei a espada.
– Posso vir a precisar disto… – Disse, enquanto lhe fechava os olhos.
Aproveitei também para lhe tirar o cinto onde estava presa a bainha da espada. Pouco depois já estava a correr de novo para ao pé de Carlos e de Clara.
Encontrei-os no interior do bosque onde me haviam contado quem eu era realmente. Clara já estava acordada e tentava tranquilizar Carlos. Ele ergueu a cabeça. Em vez de um sorriso encorajador, a sua cara distorceu-se numa expressão de horror assim que viu a espada presa à minha cintura.
– O que… – Começou ele, hesitante. – O que é que fizeste?
– Mataste-o? – Perguntou Clara, igualmente chocada. – Não…
– Qual é o problema? Ele queria matar-me. Era eu ou ele. – Disse eu, na defensiva.
– Ferir mortalmente um Anjo é um crime que te pode pôr no Inferno! – Exclamou ela. – Qualquer que seja a circunstância! Como achas que o…
Ela parou de repente de falar.
– O? – Perguntei…
– Tu já ouviste a história da Bíblia, por acaso? – Perguntou Carlos.
– Um pouco…
– Não parece… – Criticou ele. – O Demónio… Sabes como é que ele se tornou o mestre do Inferno?
Eu olhei para ele, céptico.
– Referes-te a Lúcifer?
– Não! – Exclamou ele. – Não digas o nome dele! Ele era um arcanjo que juntou um exército para combater contra Deus. Matou alguns anjos. O castigo dele foi ficar preso no Inferno.
O meu queixo caiu. Eu não esperava que aquilo fosse verdade.
– Então quer dizer que eu… Estou condenado?
– Não obrigatoriamente… – Respondeu Clara. – Deus é misericordioso.
Então lembrei-me do que ela tinha dito antes.
– Com “ferir mortalmente” queres dizer que eu apenas o feri?
– Claro. Os Anjos são imortais. – Informou Carlos.
Óbvio. Eu estava a ser perseguido por imorais. Demónios e Anjos.
– Porque é que eu estou a ser perseguido pelos bons e pelos maus? – Perguntei.
– Isso é o que vamos tentar descobrir. Anda – Ordenou Carlos, caminhando para o interior da Floresta.

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