Capítulo 5: Os Filhos de Lilith
Algum tempo depois de termos percorrido a estrada, encontramos uma vila. As pessoas pareciam simpáticas e hospitaleiras. As casas não costumavam alcançar mais de três andares e a grande maioria era feita de madeira ou de pedra pintadas de branco. Não demorámos muito até encontrarmos um motel onde ficássemos. Enquanto eu e Anabela nos dirigimos para os quartos, Carlos e Gabriela foram explorar a vila, procurando informações sobre acontecimentos estranhos que pudessem ter ocorrido.
Não tinha passado nem uma hora quando ambos voltaram. Gabriela tinha um sorriso satisfeito no rosto. Carlos, no entanto, parecia preocupado.
– Descobriram alguma coisa? – Interrogou Anabela, dando voz aos meus pensamentos.
– Sim. – Respondeu a Caçadora, parecendo… demasiado alegre.
– Não são boas notícias. – Comentou Carlos, revirando os olhos.
– Claro que são. – Retorquiu Gabriela. – Temos alguma coisa para caçar.
Eu e Anabela entreolhámo-nos. Afinal não eram tão boas notícias. A última coisa que nós devíamos fazer era chamar a atenção. Entrámos num dos quartos. Aquela divisão já tivera melhores dias. A carpete que cobria o chão estava manchada em tantos sítios que era impossível identificar a cor original do tecido. A cama tinha um aspecto velho e estava coberta com lençóis encardidos. Eu e Anabela torcemos o rosto, enojados. Gabriela parecia sentir-se em casa.
– Tu estás habituada a isto… – Comentou Anabela. – E o que é que temos de caçar?
– Bem… Nestes últimos tempos as criaturas das trevas têm andado mais activas. – Começou a Caçadora. – E esta cidade tem visto as suas pessoas desaparecer misteriosamente.
– Podem ter-se ido embora deste fim do mundo. – Acusei.
– Claro, e pelo caminho perderam todo o sangue dos seus corpos. – Rematou Gabriela, deixando-nos sem resposta. – Um dos desaparecidos foi descoberto sem pinga de sangue. Ora, até vocês devem saber o que é que faz isso.
– Mas… – Argumentou Carlos. – Os vampiros estão extintos.
– Pois… isso é o que acho mais estranho. – Continuou ela. – Mas foram de facto vampiros.
Carlos pareceu paralisar. O terror manchava a sua face e olhava para mim e para Anabela. Eu e ela não percebíamos no que é que ele estava a pensar.
– Pode não ter sido um vampiro… – Sussurrou Carlos.
– Pois… – disse Gabriela, pensativa. – Pode ter sido um demónio. Só conheço um tipo de demónio que age como um vampiro, até porque foi esse tipo de demónio que deu origem a esses sugadores de sangue.
Carlos acenou afirmativamente.
– Vocês não sabem como se chamam esses demónios? – Inquiriu Carlos, preocupado.
Eu e Anabela mantivemo-nos inexpressivos, mas um medo começava a apoderar-se de mim. Algo não estava bem.
– São os Filhos de Lilith. – Informou Gabriela sorridente.
O meu coração parou. Anabela levantou-se de um salto da cama onde entretanto se tinha sentado. Carlos olhou para nós tristemente. Quando a Caçadora observou a cena, perdeu o seu sorriso.
– Espera… Vocês sabiam que eles estavam aqui? Como?
– Temos de nos ir embora. – Disse Anabela, rapidamente. – Não podemos ficar aqui nem mais um minuto.
Ouvimos um estalido metálico.
– Não sem me explicarem o que se passa aqui. – Ameaçou Gabriela, apontando-nos com o revólver de tamanho demasiado grande para a sua mão.
Ela manteve-se firme, sem mover um músculo e foi Carlos que acabou por ceder primeiro.
– Encontraste-nos na estrada porque estávamos a tentar fugir de um demónio.
Ela baixou a arma.
– Ah. – Disse ela, de novo sorridente. – Já podiam ter dito que andavam a ser perseguidos por um Filho de Lilith. Vocês até matavam um com facilidade.
O rosto de Carlos ficou mais sombrio.
– Não. Nós estávamos a fugir da própria Lilith. – Disse ele.
Aí, aconteceu algo que eu nunca esperava ver. Em vez de nos matar ali, enraivecida, Gabriela deixou-se levar pelo medo. Era a primeira vez que ela expressava terror na sua cara. A arma caiu-lhe da mão e ela agarrou numa mala.
– Eu não acredito. Vocês têm a própria Lilith atrás de vocês. Mas como é que é possível?
A sua pergunta não obteve resposta. Pouco depois saímos do quarto do motel. Já estávamos prontos para partir. Enquanto caminhávamos, Carlos contara-me a razão pela qual os demónios que davam origem aos vampiros eram chamados Filhos de Lilith. Nos seus primeiros tempos como demónio, ela alimentava-se do sangue de bebés. Essas crianças, quando cresceram, tornaram-se maléficas e poderosas. De tal maneira que foram exiladas para o Inferno, e esquecidas pelo mundo terreno. O tempo que eles passaram no local do seu exílio transformou-os em demónios. Assim, quando voltaram, alimentaram-se de sangue, tal como Lilith fizera. E assim nasceu uma nova espécie. Segundo Carlos, isto tinha ocorrido há milhares de anos atrás, ainda na altura que os humanos se estavam a começar a povoar a Terra.
Parecia estar tudo a correr bem, mas assim que a noite caiu e estávamos sozinhos na estrada, sentimo-nos agitados. Talvez o melhor fosse mesmo termos ficado no hotel. A minha mão mantinha-se colada ao punho da espada, pronta a desembainhar a arma afiada. As raparigas iam ainda mais longe, já que ambas empunhavam as suas armas de longo alcance e apontavam para os sítios onde julgavam ter visto algo mexer-se. Apesar de tudo isto, eu começava a sentir sono. Acabei por sucumbir ao cansaço, deixando-me cair. Alguém me amparou a queda, mas já não me apercebi de quem fora.
Voltei a sonhar. Era o mesmo Anjo do sonho que me tinha avisado sobre Lilith. Ele olhou-me com tristeza e preocupação. Era a primeira vez que eu via aquela expressão no rosto de um anjo que estivesse a comunicar comigo.
– Corre. Antes de o corvo se aproximar, corram como nunca antes fizeram.
O Anjo estava prestes a desaparecer, quando lhe gritei.
– Porquê?! Porque é que nos ajudas?! Nós estamos condenados!
Não obtive resposta, pois fui acordado por uma dor aguda no rosto.
– Eu disse que ele estava a dormir. – Comentou Gabriela, erguendo-se.
Anabela segurava-me a cabeça e Carlos estava ao meu lado, de joelhos. Ambos olhavam chocados para a Caçadora.
– Não era preciso dares-lhe uma chapada! – Refilou a rapariga de olhos verdes.
O meu queixo caiu. Então era por isso que me estava a doer a cara. Eu ergui-me de um salto, mas arrependi-me de seguida. Fiquei tão tonto que Anabela teve de me segurar de novo. De repente começámos a ouvi um roncar estranho ao longe. Eu desembainhei a minha espada. Anabela e Gabriela pegaram nas suas armas e apontaram-nas para a direcção do som. Carlos fez a lança girar entre os dedos, surpreendendo-me com a sua habilidade de manusear uma lança. Ele sorriu-me.
– Os Anjos com Lança são os piores... – Avisou.
O ronco aumentava de volume. Pouco depois apareceram as luzes do camião. Parecia um pouco deslocado. De repente, mais luzes firam ligadas no tejadilho do veiculo. Agora dava-lhe o aspecto de um…jipe enorme. Abri os olhos de espanto.
– Eu não acredito. – Gaguejei. – É um Monter Truck!
Corri para o carro gigantesco. Era tal e qual os que tinha visto na televisão. A carroçaria e chassis de uma carrinha de caixa aberta, com as rodas de um camião e suspensões maiores do que um homem adulto. O diâmetro do pneus era do mesmo tamanho que eu com os braços abertos e esticados para cima. A traseira estava coberta com um pano preto, que deixava ver arestas estranhas e suspeitas. O carro emanava o espírito da América, ajudado, não só pelo seu tamanho, como também pela sua pintura: réplica prefeita da bandeira dos estados unidos. O homem no seu interior parecia ter um ar duvidoso e, através da janela abeta, apontava-me um… canhão de mísseis anti-aéreos! Senti o coração cair-me nas mãos. O homem olhava-me comum olhar de aço. Literalmente de aço: os seus olhos eram cinzentos. A sua cara tinha uma cicatriz longa, que ia da testa, passava incrivelmente perto do olho e chegava ao queixo. O seu braço musculado metia medo só por si, mas com aquela arma na mão era a personificação do assustador. Arreganhava os dentes, prendendo um palito entre eles. Usava um corte de cabelo que sugeria que era um militar.
– Quem és tu, miúdo? – A sua voz era grossa e autoritária. O ligeiro sotaque americano dava-lhe ainda mais austeridade.
Eu tentei gaguejar o meu nome, mas não fui capaz. Ouvi um estalido metálico atrás de mim.
– Jonathan – Cumprimentou a voz da Caçadora nas minhas costas. – És a nossa boleia para casa.
– Nem penses! – Berrou ele. – Não entras de novo no meu carro. Da última vez quase o atiraste por um penhasco abaixo.
– Sou só eu que estou a ter um déjà-vu? – Comentou Carlos, fazendo Gabriela fuzilá-lo com o olhar.
– E já disse. – Continuou o americano. – Para ti eu sou o Senhor Raven.
Olhei para Gabriela. Ela respondeu à pergunta que me passava pela cabeça.
– Este é o Jonathan Raven, um Caçador americano. – Conhecemo-nos há dez anos no Arizona.
Olhei para ele, confuso. Dez anos? Quer dizer que ela tinha estado na América com cinco anos, se tivesse a minha idade.
– Dez? Que idade tens? – Interroguei.
– Mais do que tu. – Afirmou ela, sem adiantar mais nada.
Voltei a olhar para o homem. O seu cabelo fazia justiça ao seu apelido. “Raven” era corvo em inglês. A cor dos cabelos de Jonathan eram da mesma tonalidade que as penas do animal. Quando constatei isso, a minha mente bloqueou nas palavras do Anjo: “Antes de o corvo chegar…”
– Corram! – Gritei.
O único efeito que consegui foi que todos olhassem para mim espantados, por não estarem à espera daquela reacção. Eu estava prestes a agarrar a mão de Gabriela, quando ouvi algo que me fez gelar. O silêncio que se tinha gerado fora quebrado pelo som de um sapato feminino a pousar no chão. Até podia adivinhar que eram botas pretas. Virei-me lentamente para trás. Anabela e Carlos não a viam porque estavam virados para mim, e, portanto, de costas para ela. Jonathan e Gabriela também não a detectaram, pois estavam virados de lado, um para o outro. No entanto foram eles os primeiros a vê-la. Logo a seguir a mim. Uma brisa arrepiante soprou, fazendo os cabelos cor de prata da recém-chegada esvoaçar ameaçadoramente. Ela sorriu de forma sedutora. Jonathan soltou um guincho assustado. Anabela e Carlos ainda não se tinham virado, mas já se tinham apercebido que algo que estava por trás deles nos assustava. Ele foi o primeiro a aperceber-se de quem era, melhor, do que era, sem ter de olhar para trás.
– Deram-me tanto trabalho para vos encontrar. – Suplicou falsamente Lilith. – Não se iam já embora, pois não? Eu só vos queria apresentar aos meus filhos…
O seu sorriso mudou de sedutor para… maléfico. Anabela deu um salto para a frente, dando uma pirueta e apontando o arco para o Demónio. Carlos estava simplesmente paralisado. Parecia olhar para mim, mas então, apercebi-me que ele olhava para trás de mim. Pelo canto do olho, vi um demónio. Tinha o aspecto de uma múmia magra, com asas de morcego gigantescas a saírem das suas costas. Os caniços brancos e afiados davam a impressão que me podiam furar de um lado ao outro. Sim, de um lado ao outro, já que o mais pequeno dos três demónios que estavam atrás de mim tinha pelo menos a altura do monster trunck que estava estacionado ao meu lado.
Gabriela saltou para o veículo, que se pôs em movimento. Anabela desviou-se do caminho do monster trunk. Jonathan estava a apontar para Lilith. Ele ia tentar atropelá-la! Tentei gritar para parar. Carlos baixou-se de repente, puxando Anabela consigo, quando a mulher de cabelos prateados ergueu a mão. Uma onda distorceu o ar. O carro foi atirado, e embateu na estrada, violentamente. Ouvi o estrondo ensurdecedor do metal a ser amachucado, baixando-me também, quando me apercebi que havia bocados de chapa a voar em todas as direcções. Pouco depois uma explosão iluminou a noite. Eu apenas conseguia olhar para o esqueleto do carro em chamas. Gabriela e Jonathan estavam ali dentro. Eu podia adivinhar os contornos dos seus corpos carbonizados. Lilith riu-se com prazer. Isso fez-me olhar de novo para ela. Os demónios que me cercavam já estavam de novo no meu encalço. Dei um golpe com a espada, cortando o braço de um que me tentava agarrar. Aproveitando o impulso desse movimento, atirei uma bola de luz com a outra mão contra a cara do meu atacante. Já outro me tentava alcançar, mas uma flecha trespassou-lhe a cara, rebentando em luz, abrindo a cabeça do demónio ao meio. Aproximei-me de Anabela. Carlos ainda se mantinha acocorado, com a lança pronta a proteger-nos. Lilith começou a aproximar-se. Ela estava prestes a falar, quando uma voz suave a interrompeu.
– Não vou permitir que o faças. Não os vais matar.
– Layla… – Sussurrou Lilith, claramente irritada.
Até então não tinha me tinha sequer apercebido da presença daquela mulher. Mas assim que ela passou por mim, senti frio. Um frio de morte, como se a minha vida estivesse a ser sugada por ela. Os seus cabelos negros ondulavam calmamente, como se uma brisa de verão passasse entre ele. Os seus olhos azuis-claros eram profundos e hipnotizantes. O seu vestido vermelho chegava até um pouco abaixo dos joelhos, rasgado nas bordas, como se já fosse bastante antigo. Os seus lábios estavam tingidos de um vermelho escuro, retorcidos num sorriso de troça. Carlos arrepiou-se ao vê-la.
– Vai-te embora Lilith. – Ordenou Layla, num tom de falsa súplica.
– Nem penses! As vidas deles são minhas.
– Não. Todas as vidas são minhas. – Corrigiu a recém-chegada. – Como te atreves a desafiar-me?
Para minha surpresa, Lilith recuou um passo, hesitante. Uma bola negra apareceu na mão dela. Layla pareceu aceitar o desafio, e estendeu a mão. A manga do seu vestido era larga, com aspecto medieval. O que se seguiu gelou-me o sangue. Agora percebia porque é que a nossa inimiga tivera aquela reacção. Nem mesmo um demónio se atreveria a desafiar a morte! Na mão que outrora estava vazia, surgiu uma foice. O cabo era de madeira negra e estava envolto em sombras esvoaçantes. A lâmina cinzenta sorria perversamente, com o brilho vermelho de sangue recente. Deixei-me cair no chão, impotente. Lilith lançou a sua bola negra, que foi facilmente desviada por Layla.
– Sai daqui. – Desta vez era mesmo uma ordem. Lilith afastou-se, esfumando-se no ar. Mas algo me dizia que ela voltaria a tentar. E desta vez com mais poder.
Layla aproximou-se. Carlos foi o único com coragem para se erguer e enfrentar a mulher que se aproximava. Agora que a observava melhor, reparei que os olhos dela estavam pintados de negro à volta, tornando a sua ara sombria. Mesmo em repouso, os seus lábios mantinham o mesmo sorriso perverso da lâmina da arma que empunhava. Ela aproximou-se, no seu andar bamboleante e cumprimentou Carlos.
– Há quanto tempo… Já lá vai algum tempo desde da última vez que me entregaste uma alma…
Anabela espreitou pelo canto do olho para o meu amigo. Eu não conseguia tirar os olhos de cima de Layla. Ela… fascinava-me. A sua foice voltou a desaparecer, envolta em sombras, que s pareciam estranhamente humanas.
– Porque é que nos estás a ajudar? – Perguntou Carlos, obviamente desconfiado.
– Não vos estou a ajudar. – Ripostou ela. – Estou a ajudar-me a mim.
– Pois… – Comentou ele. – Esqueci-me que os Ceifeiros só trabalham para si próprios…
Observei-os mais um pouco. Pareciam já se conhecer há algum tempo. Claro… Carlos tinha sido um Renegado antes de ser humano. E antes disso tinha sido um Anjo que matara alguém sem autorização. Anabela fitou a Ceifeira.
– Eu explico-vos melhor, mas antes, venham comigo para um local mais abrigado.
Ela aproximou-se, e tocou-me. A sua pele era tão fria que o meu braço adormeceu logo, como se o tivesse mergulhado numa banheira de nitrogénio líquido. À nossa volta a paisagem começou a ficar desfocada, e a rua fumarenta deu lugar a um quarto de hotel, iluminado por luzes amareladas e com uma vista sobre uma cidade cujo nome eu ignorava. Assim que senti os pés assentes no chão, libertei-me das garras de Layla, afastando-me um passo, cautelosamente. Ela sorriu e fez um convite com o braço para que nos sentássemos no sofá de pele clara que se encontrava no centro da divisão.

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