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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Apocalipse (Capítulo 1)

Publicada por Anónimo à(s) 03:01

Capítulo 1: Sombra

Olhei para o espelho. Tinha acabado de acordar. Os meus olhos cor de avelã devolviam-me uma expressão cansada e os meus cabelos castanho-claros davam-me um ar digno de um monstro de um filme de Hollywood dos anos oitenta. Revirei os olhos e dirigi-me à casa de banho.

Pouco depois de acabar de tomar banho, comecei a sentir o cheiro de leite quente. Devia ser a minha mãe a preparar o pequeno-almoço. Um sorriso rasgou-me a cara quando o meu estômago roncou.

Já vestido, dirigi-me à cozinha, no andar de baixo. Como eu pensara, já uma taça de cereais esperava por mim em cima da mesa.

– Despacha-te, Alexandre! – Repreendeu a minha mãe. – Vais chegar atrasado às aulas, logo no primeiro dia.

Eu suspirei e comi o pequeno-almoço à pressa. Assim que acabei saí porta fora. Quase corri pela rua abaixo, virando depois num cruzamento, em direcção à casa da minha melhor amiga, Ana. Era uma rapariga de cabelos lisos castanhos, olhos azuis. Às vezes tinha tendência para se tornar um pouco belicosa e bruta, mas a maioria do tempo era uma amiga atenta e simpática. Toquei à campainha e esperei que ela descesse.

– Alexandre, já aqui estás? – Perguntou-me ela, ainda a vestir um casaco castanho leve, por cima do top azul um pouco mais claro do que as calças de ganga que trazia vestidas.

– Sim. – Respondi. – Já vamos chegar atrasados.

– Então vamos ter com o meu primo.

O primo dela era, fisicamente, muito diferente dela. Tinha os cabelos pretos e os olhos castanhos. No entanto, tinha tendência para ter um feitio como o dela, senão ainda mais complicado do que o da rapariga. Gostava de contradizer tudo o que as pessoas diziam. No entanto, Afonso era um bom crítico e não deixava de ser o meu melhor amigo. Tinha a mesma idade que eu e Ana.

Ele morava duas ruas abaixo dela, por isso não demorámos muito a chegar até à sua casa. Assim que lá chegámos, ele saiu de casa e dirigimo-nos para a escola. Estava um dia quente, um pouco abafado, mas uma brisa suave tornava-o mais agradável. Na altura, nem uma nuvem se observava no céu.

Quando chegámos à escola fomos recebidos com uma agitação típica do primeiro dia de aulas do ano. Os alunos novos eram facilmente reconhecíveis pelas plantas do edifício que lhes escondiam os narizes. Baralhados e indecisos, andavam aos círculos pela escola. Os mais velhos simplesmente ficavam no mesmo sítio em grupos, a conversar animadamente. Nem mesmo eles escapavam àquela energia contagiosa. Sorri para os meus amigos.

– Já sinto o cheiro dos livros novos… – Comentou Ana.

– Fogo, só pensas nisso? – Replicou Afonso. – Quem me dera estar ainda de férias.

Revirei os olhos, ao mesmo tempo que Ana suspirava, em reposta ao comentário dele.

– Vamos ter aulas ali. – Informou ela, apontando para um dos pavilhões rectangulares.

Dirigimo-nos para lá. Eu olhei em volta.

– Pois é, meus amigos… Fiquem por aqui. Eu tenho de ir ter com a minha turma. – Disse eu.

Com um sorriso despedi-me deles e fui para o outro lado o pátio. Felizmente iria começar o ano com a minha disciplina preferida: Biologia. Quando vi o professor fiquei ainda mais contente por saber que era o mesmo do ano anterior. E reparei também que era a mesma turma, com excepção de um rapaz e uma rapariga novos. Algo neles fazia uma vozinha silenciosa dentro de mim dispara de cautela, pedindo-me para não me aproximar demais. Mas isso só fez com que sentisse ainda mais curiosidade em saber que eles eram. Por isso fui ter com eles.

– Olá – Cumprimentei, esperançoso. – Sou o Alexandre. E vocês?

– Carlos. – Respondeu ele, acidamente.

– Clara. – Informou ela, no mesmo tom. – Mas não nos damos contigo, está descansado, não precisas de manter as aparências.

Algo não estava certo ali. Agora a vozinha já não parecia tão silenciosa, parecia querer rebentar com a minha cabeça. Era um sentimento de desconforto que me mantinha os sentidos em alerta. Comecei a sentir a respiração um pouco mais leve, como que para me ajudar a levar oxigénio a todo o corpo, caso fosse necessário agir depressa, estaria pronto para uma explosão repentina de actividade física. Olhei à minha volta, tentando perceber o que me causava aquele estado de ansiedade, mas as únicas pessoas mais próximas de mim eram os jovens que eu acabara de cumprimentar.

Eu sempre tivera uma inclinação para saber quem era uma boa pessoa ou alguém menos bom. Não era meu costume errar. Afonso não acreditava muito nisso, mas Ana, pelo contrário já experimentara essa minha habilidade. Por mais que as pessoas escondessem quem realmente eram, eu sabia sempre o que estava por trás das máscaras.

Com estes pensamentos, entrei na sala, seguindo Carlos e Clara, que se sentaram numa das carteiras ao fundo da sala. Eu sentei-me numa das da frente. Algo dentro de mim me dizia que o melhor era ficar o mais afastado possível daquele estranho par.

A aula passou bastante de pressa e rapidamente me reencontrei com Afonso e Ana. Ela pareceu aperceber-se que eu estava perturbado com alguma coisa.

– O que se passa, Alexandre? – Perguntou ela, preocupada.

– Nada… – Menti.

Mas ela notou a minha hesitação.

– De certeza? – Insistiu.

– Sim. E só… Nada. Não vou difamar pessoas que não conheço…

Ela olhou-me com uma expressão interrogativa e eu fiz um gesto com a mão, pedindo que não tocasse mais no assunto. Mas ela parecia determinada a descobrir o que se passava.

– Vou à casa de banho. – Informou.

Observei-a a afastar-se. Na minha cabeça ainda estava bem presente o sentimento de cautela que tinha em relação aos meus novos colegas de turma.

Passou o intervalo inteiro sem que Ana votasse para perto de nós. Mas decidi não esperar por ela e dirigi-me ao pavilhão onde iria ter a aula seguinte. Para minha surpresa, ela estava lá. Falava com alguém que estava oculto por trás da parede. EU aproximei-me, curioso.

– Oh. – Exclamou, quando me viu. – Alexandre, apresento-te o Carlos. Ele ajudou-me quando eu ia caindo.

O meu coração bateu com tanta força que parecia querer rasgar-me o peito para sair para fora do corpo. Lá estava ele, o rapaz da minha turma, com os seus cabelos negros e olhos verdes misteriosos. Um sorriso trocista e irónico iluminou-lhe a cara. A minha deformou-se numa expressão de desconfiança.

– Já nos conhecemos. – Disse eu, rancorosamente.

– Somos da mesma turma. – Confirmou ele, jocosamente.

Ana pareceu baralhada. Não com o facto de já não ser a primeira vez que eu estava na presença dele, mas pela reacção que ambos tivemos. Ela puxou-me o braço e levou-me para longe dele.

– Que se passa entre ti e o Carlos?

– Nada. – Respondi.

– Quando disseste aquilo de “difamar quem não conhecias”… Estavas a referir-te a ele? – Perguntou ela, certeira, como sempre.

– Sim… – Revirei os olhos.

– Pois… Mas acho que desta vez te enganaste. – Sussurrou ela. – Desculpa, mas ele ajudou-me. Eu escorreguei no chão molhado e da maneira que eu ia cair, a sério, até mesmo eu vi que não ia ser nada bonito de se ver.

Ela parecia muito convicta e eu suspirei.

– Não nego que isso tenha acontecido. Mas pode não o ter feito com boas intenções.

Ela olhou-me, testando-me. Depois deu meia volta e saiu, dizendo que tinha de ir para as suas aulas. Eu dirigi-me para a sala. Já toda a turma estava a entrar. Quando passou por mim, Carlos sorriu-me. Um sorriso de gozo e ameaça. Clara limitou-se a dar-me um olhar gélido. Literalmente. Eu senti mesmo um arrepio quando ela me olhou daquela maneira.

Mas pior do que isso, foi o que aconteceu depois. Assim que entrámos na sala, a professora pediu que nos sentássemos por números. Eu era o último rapaz com um nome começado por A. E Carlos era o primeiro começado por C. Ficámos sentados na mesma carteira.

– Olá, outra vez. – Cumprimentou ele, com o seu tom de gozo.

Ok… Talvez ele não fosse assim tão mau. Talvez aquela fosse a sua maneira de falar.

– Oi. – Respondi, secamente.

– Então, a Ana….

– O que é que tem a Ana? – Perguntei repentinamente.

– Calma… – Disse ele, sorrindo. – Já vi que és muito protector em relação a ela. É a tua namorada?

Ri-me.

– Não. Desculpa. – Disse, tentando esconder o meu deslize. – Ela é só minha amiga.

– Ah… – Comentou ele. – Bem… Nesse caso, achas que tenho hipóteses com ela?

Aquilo na cara dele era um sorriso pervertido?! Senti a raiva inundar-me, toldar-me o pensamento.

– Um tipo como tu? Mais cedo ou mis tarde ela vai saber quem realmente és.

Ele pareceu… Desconfortável. Como se o que eu lhe tivesse dito o tivesse magoado genuinamente.

– Então… Sempre sabes… – Sussurrou, mais para si próprio do que para mim. – Eu e a minha irmã estamos a tentar ter uma vida normal, como tu. Aliás, como todos os que são como tu.

Ele olhou para mim. Na sua cara, a preocupação tomou o lugar do arrependimento, ao ver a minha expressão confusa.

– Espera. Tu… Tu não sabes que eu sou? – Perguntou ele, cepticamente.

Eu olhei para ele.

– Mas é claro que não. Acabei de te conhecer. – Disse eu, como se aquilo fosse bastante óbvio desde o inicio.

Ele não voltou a falar o resto da aula. Na verdade nem eu tentei começar uma conversa. Algo dentro de mim gritava para desconfiar daquele rapaz. Desta vez segui o conselho da minha voz interior e mantive-me o mais afastado possível.

Quando me voltei a cruzar com Ana, ela ainda parecia um pouco ofendida com a minha acusação.

– Nem sabes da última… – Comecei, sarcástico, captando-lhe a atenção.

– O que se passou? – Perguntou ela.

– A professora pôs-nos sentados por ordem alfabética. Fiquei na mesma carteira que o teu salvador…

Ela fez uma careta de sarcasmo.

– Não percebo qual é o teu problema com ele.

– Ele é estranho.

Ana começou a rir-se. Desta vez ela não acreditava em mim. O problema é que eu tinha ainda mais a certeza que aquelas pessoas não eram de boas intenções.

De repente, senti uma presença desconfortante atrás de mim.

– Falando no diabo… – Comentei, sabendo quem estava por trás de mim.

Ana pareceu ficar surpreendida com o facto de eu me ter apercebido da presença de Carlos sem me virar.

– Hei. – Exclamou ele. – Não é preciso ser tão… mau.

Aquela hesitação soou-me estranha. Até mesmo Ana reparou.

– Olá outra vez. – Cumprimentou ela. – O meu amigo não confia em ti e diz que és uma má pessoa.

Os meus olhos escancararam-se e o meu queixo caiu. Senti o coração falhar um batimento. Não estava à espera que a língua afiada de Ana fosse actuar naquele momento. Mas Carlos não pareceu surpreendido.

– Lá tem as razões dele.

A compreensão que eu detectava nas suas palavras só serviu para sustentar a minha teoria de que algo não estava bem com aquele indivíduo. Então, apareceu a irmã dele.

– Vamos. – Sibilou ela, para Carlos.

– Porquê? – Respondeu ele. – Eu fico aqui, mana. Se quiseres vai-te embora.

Ela lançou-me um olhar de gelar o sangue. Pude mesmo ver Ana estremecer quando olhou para ela.

– Agora percebo o que querias dizer… – Sussurrou ela. – Pelo menos em relação à rapariga.

Eu repreendi-a com um olhar, já que estávamos perto o suficiente para que ela ouvisse. Entretanto apareceu Afonso, que nos convidou a irmos lanchar ao café em frente à escola. Carlos recusou educadamente, e foi procurar a irmã.

O resto do dia ocorreu sem incidentes. Nem mesmo com Carlos, já que não voltei a falar com ele. No entanto, as palavras dele não me saiam da cabeça. Ainda me perguntava porque é que ele achava estranho eu não saber quem ele era.

Quando entrei em casa, senti um pressentimento estranho. Algo não estava certo. A casa estava silenciosa demais.

– Mãe! – Chamei.

De repente, senti uma presença esmagadora. Sentia-me completamente indefeso e na presença de um perigo imenso. Olhei à minha volta, sentindo o meu coração bater rapidamente. A adrenalina espalhava-se pelo meu corpo. Eu não via nada. Apenas sentia que devia sair dali. As minhas pernas lutavam contra o Cérbero para me manterem no lugar.

– Mãe! – Exclamei, desta vez preocupado.

Tudo aconteceu muito rápido. Uma sombra negra tomou forma à minha frente, uma explosão de fogo apareceu entre mim e o que quer que aquilo fosse. Senti-me a ser puxado por alguém para fora da casa, e via-a arder até aos alicerces numa questão de segundos. Dos escombros saiu uma sombra compacta que se aproximou de mim e de quem me carregava. Um outro vulto apareceu entre nós e atraiu a sombra para outro lado. Os meus sentidos estavam em alerta. Conseguia ouvir o coração acelerado de quem me transportava. Eu sentia a sua presença. A sua vida. A sua… Aura. Tentei fazê-lo soltar-me. A tarefa foi bem sucedida. Caí de joelhos, mas, levantei-me rapidamente e dei meia volta, pronto para enfrentar o rapaz que me havia segurado.


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