Capítulo 6: Reunião com a Morte
Sentei-me cautelosamente no sofá. Anabela fez o mesmo. Carlos manteve-se de pé, com a lança apontada a Layla. Ela olhou-o, esperando que ele baixasse a arma. Como não o fez, começou a falar.
– Então, o que é que vocês andavam a fazer, a fugir da Lilith?
– A tentar manter-nos vivos. – Sibilou Carlos.
– E se não fosse eu, quase que falhavam o vosso objectivo…
Eu observava-os, em silêncio. Eu simplesmente não conseguia articular nenhuma palavra.
– E porque é que nos ajudas-te?
– Porque quero manter-me… viva.
A hesitação que ela fez na frase fez-me perceber que os Ceifeiros não estavam mortos. No entanto, também não estavam vivos. Eles eram a própria morte. Carlos contou-me, mais tarde, que os Ceifeiros apenas se encarregavam de recolher almas de pessoas assassinadas ou mortas por causas anormais, como acidentes de viação. E não havia apenas um: havia bastantes. No entanto mantinham-se invisíveis, para não serem detectados pelos homens.
Layla aproximou-se de mim, fazendo-me encolher. Ouvi a corda do arco de Anabela ser puxada, pronta a disparar uma flecha.
– O que é que se passa lá fora? – Perguntou, Anabela, suplicante. – Temos o Céu e o Inferno atrás de nós…
Layla olhou-a.
– Bem-vinda ao meu mundo, rapariga. – Respondeu a Ceifeira. – Habitua-te. Para onde é que se dirigiam?
– Até ao Vaticano. – Informou Carlos. – Vamos pedir ajuda lá. Deve ser um mal entendido, termos Anjos atrás de nós.
A mulher de vestido vermelho mordeu o lábio, como se soubesse que Carlos estava errado no que dizia. Ele apercebeu-se disso.
– O que é que se passa? – Inquiri, timidamente.
– Não têm ouvido as notícias? – Exclamou Layla.
– Nem por isso, temos estado mais ocupados a tentar não morrer. – Retorquiu Anabela.
– O Vaticano foi destruído. Segundo os humanos, um meteoro…
Nenhum de nós conseguiu perguntar o que e que tinha atingido Roma. Ela deixara bem claro que não tinha sido algo tão simples como um meteoro.
Carlos estava prestes a perguntar o que se passava, quando se ouviu um Estrondo imenso. Uma luz brilhante ofuscou-nos. Corremos para a janela, para ver o que se passava. No prédio em frente, conseguíamos ver um buraco fumegante. Do seu interior, um homem alado fitou-nos.
– Baixem-se! – Berrou Layla.
A sua ordem foi obedecida quase instantaneamente, mesmo a tempo de nos salvar dos estilhaços de vidro que voaram pelo quarto, consequência da bola de luz que o atacante nos tinha laçado.
Olhei para cima. Das costas de Layla saía agora um par de asas cobertas de penas negras. Ela impulsionou-se para a frente, invocando a foice. O Anjo voou na direcção da Ceifeira, brandindo a espada envolta em luz. A mulher defendeu-se habilmente com a foice e empurrou-o um pouco para longe. O Anjo lançou uma bola de luz contra Layla, que se desviou. O poder que emanava daquelas duas criaturas era imenso. Anabela, eu e Carlos desviamo-nos para o lado, quando a bola de luz perdida atingiu o edifício onde estávamos. Vi faíscas e vigas metálicas cair ameaçadoramente perto de nós. Quando me voltei a focar na luta entre a Ceifeira e o Ano, apercebi-me que ela estava perder terreno. As suas asas negras já quase embatiam na parede do hotel danificado. Lá em baixo começava-se a ouvir as primeiras sirenes.
Anabela apontou o arco para a confusão de movimentos rápidos trocados entre o anjo e Layla. Assim que vi a luz a brilhar na flecha, atirei-me contra a rapariga.
– Não! – Ordenei. – Vais matá-la!
Anabela olhou-me. Ela não precisou de dizer uma única palavra para eu entender que ela não se importava de sacrificar a ceifeira. Eu devolvi-lhe um olhar de reprovação.
Pouco depois, ouvi vidros a estilhaçarem-se do outro lado da rua. O Anjo tinha entrado pelo prédio da frente a dentro, atirado por uma criatura que parecia não ter matéria, aparentava ter a densidade do ar. Paralisei quando me apercebei que o que eu acabara de ver era uma alma. Layla aproximou-se de nós. A sua cara estava decidida, sem dizer uma única palavra, puxou Carlos para perto de mim e de Anabela e teletransportou-nos dali.
Eu ainda não tinha percebido bem o que tinha acontecido até me aperceber que estava no meio de uma praça larga. Há minha frente uma gigantesca Catedral erguia-se imponentemente, causando uma sensação de inferioridade nos seus observadores. Há nossa volta estava uma construção, composta por dezenas de colunas, formando um circulo à nossa volta, fazendo lembrar um templo romano. No cimo do telhado de pedra que cobria as colunas, podiam observar-se várias estátuas de pessoas que me apreciam familiares. Carlos estava de queixo caído.
– Eu não acredito… Estamos na Praça de São Pedro!
Olhei para ele, também incrédulo. Mas então, reconheci a Catedral. Na verdade era a Basílica que eu já vira em algumas fotografias. A Basílica de São Pedro, no Vaticano. Mas aquele espaço parecia estar estranhamente vazio. Não havia ninguém a passear, nem mesmo turistas.
– Algo está errado… comentou Anabela.
Eu acenei afirmativamente. Foi então que os vimos. Quatro Cavaleiros a aproximarem-se, vindos da Basílica. Um montava um branco como a neve, o outro num cavalo vermelho, da cor do sangue. O Terceiro estava em cima e um cavalo castanho-escuro, quase negro. O último, tinha uma cara esquelética e a sua montada, de um branco esverdeado, parecia estar terrivelmente doente. Eu reconheci-os.
– Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse!? – Exclamei.
– Conquista, Guerra, Fome e Pestilência… – nomeou-os por ordem, Carlos.
– O apocalipse… é isso que está a acontecer. – Sussurrou Anabela.
O Cavaleiro que se encontrava à frente, apontou-nos o seu arco. Corremos para o abrigo das colunas. A flecha que atingiu o chão tina o tamanho de um torpedo.
– Caramba, eles são enormes! – Comentei.
Até então pensava que eles estavam mais perto, devido ao seu tamanho, mas agora percebia que eles ainda estavam bastante perto da Catedral: quase do outro lado da Praça onde estávamos.
Quando nos abrigámos, apercebi-me de um movimento ao fundo do corredor de colunas. Um homem aproximou-se, cautelosamente. Mas eu reconheci-o. Desembainhei instintivamente a espada, surpreendendo os meus companheiros, que ainda não se haviam apercebido daquela presença.
– Afasta-te. – Ordenei. – Eu sei o que és tu.
Carlos Parecia muito mais surpreendido.
– Baixa a arma. – Pediu-me o meu amigo. – Não vais conseguir combatê-lo. Ele é o Arcanjo Miguel, o general da Armada Divina.
– Como é que o reconheceste? – Perguntou Anabela.
– Ele… Apareceu nos meus sonhos… – Respondi, hesitante.
O Arcanjo aproximou-se. Então Anabela pareceu lembrar-se de algo.
– Meu Deus… Lembraste do que é que o Arcanjo Gabriel disse quando entrou em minha casa, antes de nos tentar matar?
– Não. – Sibilei, erguendo uma sobrancelha.
– “Que Rafael e Miguel me perdoem”. – Começou ela. – Ele referiu Rafael porque é o meu Pai. Alexandre, aquele é o teu pai…
O meu coração falhou um batimento. O Arcanjo já estava próximo o suficiente para ouvir a nossa conversa e sorriu, como que confirmando a versão de Anabela. Olhei de novo para ele. Eu não conseguia ver as suas asas em lado nenhum.
– Alexandre… – Chamou ele. – O Pai quer exterminar os Humanos. Não há forma de impedir o apocalipse de acontecer.
– Tem de haver. – Gaguejei. – Porque é que Ele quer fazer isto?
– Os humanos têm criado muita guerra e destruição. O planeta está a morrer. Deus quer acabar com isso, impedir que matem completamente tudo o que existe neste mundo, todas as outras criações. – Explicou o Arcanjo Miguel.
– Então porque é que me ajudaste?! – Acusei.
– Porque sei que há pessoas neste mundo que não merecem morrer. É por isso que te peço que fales com Ele.
– Mas como? – Perguntei.
Ele apontou para a basílica. Os Cavaleiros estavam a aproximar-se cada vez mais.
Anabela
Alexandre ficou a observar a Basílica de São Pedro. O meu coração parou quando ele começou a correr na direcção dos cavaleiros do Apocalipse. Carlos e eu chamámo-lo, mas sem êxito. O Arcanjo sorriu e esfumou-se no ar. Afinal era apenas uma imagem dele.
Carlos começou a correr atrás do meio-anjo, mas eu agarrei-lhe o braço. Ainda assim, saímos de debaixo do telhado que cobria as colunas, e pudemos observar o céu. Um enxame de Anjos voava em círculos, na periferia da Praça. Alexandre continuava a correr, sem olhar para cima. Vi-o atirar-se para o lado, para se desviar da flecha lançada por Conquista. Poucos segundos depois, o Cavaleiro da Guerra já estava quase a atingi-lo com a sua imensa espada, mas ainda assim, conseguiu desviar-se. Continuou a correr, evitando os cascos do cavalo montado pelo Cavaleiro da Fome por um triz. Pestilência não se deixou ficar para trás e tentou, em vão, atingir Alexandre com a sua foice. A pedra que fora atingida pela arma ficou corroída, como se tivesse sido banhada com ácido.
Eu simplesmente observava, sem poder fazer nada. Finalmente, ele conseguiu entrar dentro da Basílica. Os Cavaleiros tentaram segui-lo, mas eu tentei dar mais tempo ao meu amigo, disparando uma flecha envolta em luz contra o cavaleiro mais próximo. De seguida comecei a correr, de ovo para o abrigo das colunas. Apercebi-me, tarde de mais que fora uma má ideia. O cavaleiro que empunhava a espada deitou abaixo uma das colunas, que foi caindo para cima da seguinte, e essa caiu para cima da outra, num efeito dominó, até chegar a mim e a Carlos, fazendo desabar toneladas de pedras por cima de nós. Então, ficou tudo negro.

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