Capítulo 3: Aura
Já caminhávamos há tanto tempo que o Sol começou a aparecer. Carlos informou-me que durante o dia os demónios não tinham tanto poder. No entanto os Anjos eram muito mais poderosos agora. Algo dentro de mim não parecia descansado com aquilo. Se eu matasse demónios, não haveria problema… No entanto, se tivesse que me defender de um Anjo, só poderia fugir.
– Como é que eu posso livrar-se de um Anjo sem o matar? – Perguntei, inocentemente, após mais algum tempo de caminhada.
Clara revirou os olhos, e Carlos fez o seu sorriso jocoso.
– Pensei que já tinhas percebido como… É um pouco óbvio. – Comentou ele.
Eu não respondi, no entanto, fiquei à espera que ele me esclarecesse a minha dúvida.
– Corta-lhe as asas. – Suspirou Clara. – Dessa forma reduzes-lhe o poder e atordoa-lo por um bocado. Dá-te tempo para fugir… No entanto o Anjo consegue recuperar depressa.
Eu sorri. Afinal sempre havia uma maneira de me livrar desse peso na consciência. Finalmente Clara e Carlos pararam, em frente a uma casa de madeira, com aspecto moderno e que se parecia fundir com a natureza em redor.
Tocaram à campainha e uma mulher loira abriu a porta. Pareceu surpreendida por nos ver ali.
– Carlos, Clara. Não esperava que viessem aqui terem. Presumo que queiram falar com o Rafael.
– Sim. – Confirmou ele.
– Desculpa, mas ele não está cá há alguns anos… Sabem bem que…
Ela olhou para mim com um ar desconfiado. Fitou os meus olhos.
– Sim, podes confiar nele. – Afirmou Carlos. – É como a Anabela.
A mulher olhou para mim.
– Um Híbrido Celestial. Vocês souberam? Os anjos têm vindo à terra para os matar…
Ela parecia triste, mas convidou-nos a entrar. A casa por dentro era muito maior do que aparentava. Algo na última frase dela me deixava inquieto.
– Tenho tentado esconder a Anabela. Espero que o Rafael esteja a tentar protegê-la.
Um clique soou no meu Cérbero, como se uma lâmpada se tivesse acendido. Eu já tinha ouvido aquele nome.
– Rafael? – Perguntei, atarantado. – O Arcanjo Rafael?
Todos olharam para mim. Uma expressão triste percorreu o rosto da mulher. Carlos e Clara tinham apenas um olhar de repreensão na cara.
Uma rapariga loira, com mais ou menos a minha idade entrou na sala. Tinha os olhos iguaizinhos aos meus. Isso fez um arrepio percorrer-me a espinha. Ela devia ser Anabela. A sua presença era bastante forte. Calorosa. Era a filha do Arcanjo.
– O que querem de meu pai? – Perguntou ela, com uma voz melodiosa.
Então Anabela sabia quem era. Senti inveja por ela até ter conhecido o seu pai.
Ela olhou estranhamente para mim. Parecia… Surpreendida.
– A tua Aura… Tu és um Anjo? – Perguntou ela, receosa.
– Não. – Respondeu Clara. – É um Híbrido como tu. Porquê?
Ela parecia desconfiada.
– Ele tem uma Aura poderosa… – Comentou a rapariga loira.
Carlos mudou de assunto. Parecia incomodado com as minhas origens.
– Rafael ainda em acesso a esta casa? – Perguntou Carlos.
– Isso está fora de questão. – Avisou a mãe de Anabela. – Ele pode receber ordens para matar a sua própria filha se vier aqui ter. E se não o fizer pode acabar como Lúcifer.
Carlos e Clara levaram os dedos aos lábios, num sinal de silêncio. Eles levavam muito a sério aquela superstição. Anabela abanou a cabeça negativamente.
– Ele tem uma Aura tão forte… Qualquer anjo o pode seguir até aqui!
E repente, senti algo a aproximar-se. Uma presença. Uma sensação igual à que sentira antes de o anjo se aproximar.
– Baixem-se! – Gritei.
Todos o fizeram instintivamente. Uma explosão ensurdeceu-nos. A presença era muito poderosa. A aura daquele anjo era imensa. Um poder inimaginável. Mas isso para mim era sinal de perigo. Olhei para cima. A sua imagem era ainda mais imponente que a do anjo que anteriormente me atacara. Clara e Carlos estavam petrificados.
– Gabriel… – Gaguejou Clara.
O meu coração parecia querer saltar-me do peito, tão farto que estava de ter emoções tão fortes. Era normal que aura dele fosse mais forte que aquilo que eu imaginara. Aquele era o Arcanjo Gabriel. Ele olhou para mim e para Anabela.
– Vocês… – Sussurrou ele. – Que Rafael e Miguel me possam perdoar. Mas recebi ordens para vos matar.
Eu desembainhei a espada, desafiando-o. Ele olhou para a sua própria arma. Um olhar triste toldou-lhe o rosto. Eu ergui um pouco mais a espada.
– Arcanjo ou não, eu não vou deixar que nos mates. – Ameacei.
De seguida atirei-me contra ele. O Arcanjo defendeu-se facilmente do meu golpe e atirou-me para longe com uma força tremenda. Anabela saiu da sala. Gabriel olhou para ela, mas acabou por se decidir a matar-me primeiro. Ergueu a espada bem alto e, surgidos do nada, dois pares de mãos agarraram-lhe o pulso. Carlos e Clara faziam um grande esforço para impedir o meu atacante de se mover. Eu corri contra ele e corei-lhe uma das asas. Um grito vindo da garganta do Anjo lacerou-me os ouvidos. A outra asa atingiu-me, dentando-me ao chão. No mesmo movimento, Gabriel atirou os dois Renegados ao chão.
– Vão pagar caro por esta traição. – Avisou ele, melancólico.
De repente, uma flecha espetou-se no ombro de Gabriel. Ele olhou para Anabela. Ela empunhava um arco de madeira clara. Era uma arma simples, mas mortal nas suas mãos. Eu aproveitei esta distracção e tentei cortar-lhe a outra asa. Mas o Arcanjo apercebeu-se, e agarrou-me pelo pescoço. Puxou a sua outra mão atrás, empunhando a espada. Eu deixei cair a minha. Fechei os olhos, e ouvi a lâmina partir um osso e cortar carne macia. Senti-me cair. Pensei que aquele golpe até me tinha partido a coluna, mas eu não sentia dor alguma. Quando abri os olhos, vi Gabriel ajoelhada, com ambas as asas cortadas e Clara a empunhar a espada que eu havia deixado cair.
– Obrigado – Sussurrei.
– Não… – Sussurrou Gabriel. – Vocês vão destruir a ordem natural do Mundo…
Eu olhei para ele confuso. Não percebia o que é que o Arcanjo queria dizer com aquilo.
– Gabriel… – chamou Clara. – O que é que queres dizer com isso?
– Irmã. – Disse ele, melancólico. – Se tu soubesses o que estás a proteger, saberias que eu estou aqui pelo bem.
Ela parecia não conseguir perceber.
– O que é que se passa? – Perguntou Carlos. – Porque é que andam a caçar os Híbridos?
O Arcanjo ficou calado. Clara parecia pensativa e, de repente, pareceu ter uma ideia.
– Viemos aqui à procura do Arcanjo Rafael para informações sobre o que se passava. – Comentou. – Mas temos à nossa frente o Arcanjo Gabriel, o mensageiro de Deus. Ele não te enviaria para uma luta.
– Na verdade, – Disse o Arcanjo. – A minha tarefa era enviar uma mensagem e vós, Renegados. Mas parte da minha missão era eliminar os Híbridos que encontrasse por perto.
Clara e Carlos olharam para ele, interessados.
– Que mensagem era essa? – Perguntou Clara.
– Voltem a casa. Estão perdoados. Poderão voltar a servir na Armada Celestial.
Carlos e Clara pareceram ficar contentes, mas de pressa o seu contentamento desapareceu.
– Gabriel. O que se passa? – Suplicou Carlos. – Algo não está certo. Para que é que Deus decidiu de repente reunir o máximo do seu exército possível?
O arcanjo ergueu-se. As suas asas pareciam já ter começado a crescer. Ele olhou-me.
– Apenas digam o que querem fazer. Se não voltarem agora, passaram a ser humanos normais.
Clara aproximou-se um pouco dele, no entanto, Carlos acenou negativamente.
– Qual é a razão desta caçada aos Híbridos? – Interrogou o Renegado.
– É essa a vontade do Senhor. – Afirmou Gabriel.
– Eu não vou matar um ser vivo só porque assim me é mandado. Os Híbridos Celestiais nunca nos deram problemas. É com os meio demónios com que se devem preocupar.
Gabriel repreendeu-o com um olhar. Clara observou-o tristemente.
– Desculpa. Mas eu esperei demasiados anos pelo perdão. Vou contigo, Gabriel.
Carlos aproximou-se de mim, com uma expressão decidida. Gabriel olhou-o uma última vez, antes de desaparecer numa luz forte, levando Clara consigo. Eu e Anabela ficámos a olhar para ele.
Anabela entrou na sala. Já era de noite, mas eu e Carlos ainda estávamos sentados no sofá. No centro da divisão ainda se viam os destroços causados pela entrada do Arcanjo Gabriel. Através de um buraco no tecto podíamos ver o céu estrelado. Ninguém tinha dito uma palavra até então. Foi a rapariga quem quebrou o silêncio.
– Porque é que vieram procurar pelo meu pai?
– Porque era o Anjo que pensámos ainda estar na Terra. – Suspirou ele.
Ela olhou para ele. Parecia preocupada. Então, lembrei-me das palavras do Arcanjo.
– Quer dizer que tu agora… – Comecei. – És humano?
– Sim.
– Como podes ter a certeza disso? – Perguntou Anabela, lendo-me o pensamento.
– Já não sinto as vossas Auras.
Na face dela apareceu uma expressão de compreensão. Na minha estava espelhada a confusão. Anabela apercebeu-se disso e pareceu surpreendida.
– Que é que se passa? – Interrogou ela.
– O que é isso da Aura? – Perguntei de um só fôlego.
Anabela parecia surpreendida por eu não saber a resposta à pergunta que eu colocara. Carlos, no entanto, parecia compreensivo.
– Ele nem sequer sabia o que era o pai dele até há dois dias atrás. – Comentou, fazendo Anabela olhar para mim com o seu olhar de pena. – Já alguma vez te apercebeste da presença de uma pessoa, de um ser vivo e conseguiste sentir se esse ser era bondoso ou mau?
Acenei afirmativamente, lembrando-me do sentimento que tinha antes de aparecer o anjo que nos tinha atacado perto da minha casa, antes de aparecer Gabriel e antes de… conhecer Carlos e Clara.
– Isso é a Aura. – Completou Anabela. – Anjos, demónios e Híbridos conseguem sentir as Auras das coisas vivas. Conseguem saber se são boas ou más. Conseguem até sentir se são poderosas ou se não apresentam nenhuma ameaça.
Ela olhou para o tecto. Parecia desconsolada com os estragos. Eu decidi tentar continuar aquela conversa.
– Quer dizer que vocês também sentiram o Arcanjo antes de ele chegar?
Ambos acenaram afirmativamente. Carlos estava agora com uma expressão pensativa. Então a saudade tomou o seu rosto. Devia estar a relembrar Clara, ou do que tinha abdicado para estar perto de mim.
– Porque é que te decidiste a ficar humano? – Inquiri, curioso, mas ao mesmo tempo cauteloso.
– Não acho bem matar inocentes. E além disso, algo dentro de mim me diz que ainda vais ter um papel importante no desenrolar dos eventos vindouros.
Agradeci-lhe com um olhar. Comecei a sentir as minhas pálpebras pesadas. Anabela sorriu amistosamente.
– Há um quarto de hóspedes disponível. Segue-me.
Carlos também parecia não estar a conseguir vencer o sono e acabou por ir também atrás da rapariga.
Quando finalmente acabei por adormecer, tive um sonho estranho.
Eu estava em minha casa. Tudo se encontrava silencioso. Então, uma luz apareceu no corredor. Eu corri para lá. No local estava um homem. Os seus cabelos eram castanhos-claros, quase loiros. Os seus olhos profundos e azuis denunciavam quem era. Para justificar as minhas suspeitas, um par de asas abriu-se nas costas do homem. A sua cara oval fazia-me lembrar alguém. Assim como o seu nariz que parecia ter as proporções certas para aquela cara, fazendo um arco concavo. Ele olhou-me tristemente.
– Quando a Lua se esconder sob o véu negro da noite, corre para longe.
Senti-me subitamente cheio de medo e acordei sobressaltado.
Olhei à minha volta. Numa cama em frente à minha, Carlos dormia pacificamente. Tacteei o meu caminho na casa às escuras ate à cozinha. Acendi a luz assim que lá cheguei, e bebi um pouco de água corrente da torneira.
Aproximei-me da janela, tentando perceber o significado daquele sonho. Olhei para a lua. Estava cheia. Sorri. Talvez, já que os anjos e os demónios existiam mesmo, um dos anjos me estivesse a tentar avisar que um lobisomem me ia saltar para cima.
Quando estava prestes a pensar que o sonho era apenas um pesadelo estúpido sem significado, algo aconteceu que me gelou o sangue. Os meus olhos ficaram presos na Lua. Uma nuvem tapava-a lentamente, impedindo-a de brilhar. O céu começava a ficar ainda mais escuro. Tentei sair dali, mas as minhas pernas não me obedeciam. Detectei movimento atrás de mim. Entretanto, a Lua tinha desaparecido por completo. Olhei para o reflexo do vidro.
O que vi, fascinou-me. Uma mulher alta observava-me. Os seus cabelos prateados e lisos desciam-lhe abaixo da cintura. Contrastavam imenso com o seu vestido preto. A peça de vestuário parecia ser feita de cetim e chegava até aos joelhos. Era liso até à cintura, onde começava a formar pregas verticais, dando-lhe um aspecto leve. As alças eram adornadas com renda da mesma cor que o vestido. A sua pele era branca como a neve.
Virei-me para trás, algo surpreendido. Era realmente bela. No entanto, os seus olhos vermelhos de gato tinham uma fúria predadora a arder fortemente.
– Ora, ora. – Pigarreou ela, com a sua voz aguda, mas suava, calmante e no entanto emanava perigo constante. – Tão parecido com o teu pai que podia jurar estar na presença deles. Não fossem os olhos verdes e a Aura mais fraca….
As palavras dela ecoaram no meu Cérbero.
– Conheceu o meu pai? – Perguntei, estupidamente.
Ela soltou uma gargalhada aguda. O mal que emanava daquele som era penetrante. No entanto, eu não conseguia sentir a Aura daquela… criatura.
– Quem… Quem és tu? – Perguntei, colocando uma mão esticada à minha frente.
Ela sorriu, mostrando os dentes brancos, perfeitos. Deu um ligeiro passo em frente.
– Não sabes quem eu sou? – Perguntou, claramente tentando gozar-me.
Ouvi um passo no corredor.
– Estás a pé, Ale… – A voz de Carlos esmoreceu-se quando entrou na divisão.
Ele devia ter acordado com o riso da desconhecida. Parecera ensonado quando começara a falar, mas agora tinha os olhos arregalados.
– Que os Arcanjos nos protejam. – Suplicou Carlos.
Ela sorriu maleficamente.
– Nem os Arcanjos te podem ajudar agora.
Ela ergueu um braço e esticou-o na minha direcção.
– Corre! – Berrou Carlos.
Eu atirei-me para o lado. Senti uma brisa quente passar perto da minha cabeça. Corri para Carlos, que se trancou no quarto mais próximo. Ele aproximou-se da cama. Acordou Anabela.
– Temos e sair daqui. O teu pai ensinou-te a ocultar a Aura? – Perguntou ele, rapidamente.
Ela acenou afirmativamente.
– Porquê? – Interrogou ela.
– A Lilith está lá fora.
Anabela ficou num estado de choque total. Parecia que lhe tinham dado com um camião de mercadorias em cima. Aquele nome não me era estranho. Anabela levantou-se de um salto. A sua mão direita começou a brilhar e tocou com ela no meu peito, no de Carlos e depois no seu próprio. A voz sibilante da mulher soou do outro lado da porta.
– Eu sei que estão aí dentro. Não vale a pena esconderem a vossa Aura.
Olhei para Carlos.
– A espada. Está no outro quarto.
– Nem penses. – Cortou ele. – Temos de sair daqui.
A porta começou a queimar. Carlos atirou-me contra a janela, desfazendo-a em estilhaços. Anabela seguiu-me, ajudando-me a levantar. Carlos apareceu logo atrás.
Anabela e Carlos começaram a correr desalmadamente. Eu segui-os de perto. A rapariga fez uma curva repentina à direita, tornando ainda mais difícil a minha tarefa de me manter atrás dela. A rapariga aproximou-se de uma carrinha azul escura. Entrou no lugar do condutor do monovolume e fez ligação directa. Eu observava tudo aquilo, já sentado na traseira do automóvel, ao lado de Carlos. Poucos segundos depois, estávamos na estrada a toda a velocidade.
– Quem é a Lilith? – Perguntei, temendo a resposta.
Carlos e Anabela estremeceram quando proferi o nome da mulher. O rapaz estava constantemente a olhar pelo vidro de trás, para se certificar de que não tínhamos sido seguidos.
– É a primeira mulher de Adão. O primeiro Demónio que apareceu. Foi também a primeira humana que se apaixonou por um Anjo.
Eu olhei para ela.
– Queres dizer que o primeiro Híbrido teve origem naquilo? – Disse eu, espantado.
– Sim… – Confirmou Carlos. – Mas ela depressa cedeu à tentação de Lúcifer e tornou-se uma grande aliada dele. Pior demónio do que a Lilith é difícil de se encontrar.
Senti um nó atravessar-se no meu estômago.
– E ela escondeu a sua Aura… Se a sua Aura é assim tão poderosa, como é que ela a conseguiu esconder completamente?
– Não conseguiu. – Responderam os dois em simultâneo.
A princípio não percebia o que é que eles queriam dizer com aquilo, mas então lembrei-me dos arrepios que o riso e a voz dela me provocavam.
Ficámos durante quase toda a noite na estrada. Não queríamos parar nem dormir, sob o risco de sermos apanhados.

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